Lei
Livro I - Ordo Amoris e o Escravo de Eros
“Lúcio — Colocarmos o nosso amor, a nossa amizade e a nossa consideração pelo próximo em geral nas mãos do Senhor é matéria de fé sobre a qual não discuto, nem quero debater a velha querela, um tanto ou quanto maniqueísta, entre a “política maquiavélica” e a “política cristã”, mas mesmo partindo da premissa de que, ao arrepio de uma besta ou de um amante de guerra (φιλοπόλεμος), o Homem é um animal social, ou político, por natureza ([i]) – convivendo com os seus familiares, amigos, vizinhos, numa escala progressiva e racional até alcançar o Estado – também é verdade que esta velha fórmula de Aristóteles distinguia o Homem das abelhas e de outros animais gregários por este possuir, para além da voz (φωνή), a capacidade de discursar, o logos (λόγος), o qual lhe permite formar uma comunhão (κοινωνία) de sentimentos relativos ao que é o bem, o mal, o justo e o injusto, partilha essa que constitui a casa (οἰκία) e a cidade (πόλις).
Ora, certamente que, entre os Homens gregários, podem existir tantas “casas” ou “cidades” quantas as comunidades de sentimentos morais, pelo que essa história que avançaste não é a explicação mais natural, é antes a versão cosmopolita de um universo composto por vários animais morais, os quais não são, pois, necessariamente egoístas por natureza, mas mais provavelmente tribais.”
[i] Aristóteles, Política, Livro I, 1253 a) – “o Homem é, por natureza, um animal político” (“ὁ ἄνθρωπος φύσει πολιτικὸν ζῷον”). Versão bilingue da Política de Aristóteles da Nova Vega, 2016 (Trad. António Campelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes) e o áudio-livro em grego antigo, por Ioannis Stratakis (2019), disponível em https://ancientgreek.eu/index.html.
Brevemente